quinta-feira, 3 de julho de 2014

Diretor de teatro diz como é ensinar arte a autistas


Deto Montenegro no lançamento do seu livro Do Improviso à Marca, que conta a história do musical Noturno, que está em cartaz há 20 anos na Oficina dos Menestréis
Foto: Facebook / Reprodução
Apaixonado pela música e pelo teatro, o carioca Deto Montenegro, 51 anos, comprova diariamente o poder transformador que a arte exerce na vida das pessoas. Irmão do cantor e compositor Oswaldo Montenegro, com quem começou a trabalhar aos 18 anos, Deto oferece treinamento artístico e gratuito a idosos, deficientes físicos, deficientes visuais, pessoas com síndrome de Down e autistas, desde 2003. Na Oficina dos Menestréis, em São Paulo, local em que é diretor, Deto aprimora o reflexo, a percepção e a intuição dos alunos. E já tem turmas ainda em Ubatuba, Poços de Caldas e São Bernardo. 
Terra - De onde veio a inspiração para ensinar a grupos especiais?
Deto Montenegro - 
A ideia do curso era que fosse aberto, não profissionalizante, e que esse lado artístico pudesse trazer um retorno no dia a dia das pessoas. Em 2003, conheci uma menina cadeirante e pensei: ‘Se eu adaptar esse método para esse público vai ter super a ver com o meu discurso’. Depois, fui procurado por um grupo de cegos. Então juntei as turmas e criei o Grupo Mix. Agora, estou com um grupo de 30 menestréis, todos com síndrome de Down e outro grupo formado apenas por autistas.
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Terra - Quais são as principais peculiaridades desses projetos? 
Deto - 
A adaptação. Quando eu estou trabalhando com um grupo comsíndrome de Down, eles têm pouca dicção, então aposto na espontaneidade, na ternura, no improviso. Já os autistas são mais pragmáticos, você precisa fazer tudo igual, então uso mais texto. Com os deficientes visuais, ao ensinar uma coreografia, procuro pegar neles, guia-los. Com o cadeirante, tenho que adaptar tudo para o tempo-espaço da roda, que é um tempo-espaço diferente. Estou sempre aprendendo com eles. A gente vai se ajudando.
Terra - Seu irmão Oswaldo participa ou assiste aos espetáculos?
Deto - 
A gente é muito fã um do outro. Sempre que ele pode, ele está por aqui ou eu estou onde ele está. Ele assiste às montagens e sempre que eu posso também trago ele às aulas para dar uma ‘pitada de mestre’. 
Terra - O que mudou em você após a criação do projeto? 
Deto - 
A minha visão mudou muito em relação à diversidade. Eu me vejo muito realizado. O que a arte tem de mais bonito são os tipos humanos. Hoje eu tenho contato e tenho amigos coroas, crianças, com síndrome de Down, autistas, cadeirantes. Isso para mim foi um presente. 
Terra - Como entram e como saem seus alunos dessas experiências?
Deto - 
Eles são muito agradecidos. Após a aula, você passa a ser uma pessoa muito mais habilidosa. Imagina você ter de andar no palco com 20 cadeiras de rodas ao seu lado?
Terra - Olhando adiante, quais projetos gostaria de por em prática?
Deto -
 A minha vontade é juntar todas essas turmas e fazer um espetáculo único. Já imaginou? Down misturado com autista, misturado com coroa, misturado com cadeirante, misturado com cegos... Vou fazer uma geleia geral, misturar todo mundo no palco. Tudo junto e misturado.


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