Por: Claudia Moraes é mãe
de um autista adulto, Pedagoga, Coordenadora no Estado do Rio de Janeiro do
Movimento Orgulho Autista Brasil e Coordenadora do Instituto NInho.
·
Comece por você, se reeduque, pois daqui para frente seu mundo
será totalmente diferente de tudo o que conheceu até agora.
Se
reeducar quer dizer: fale pouco, frases curtas e claras; aprenda a gostar de
músicas que antes não ouviria; aprenda a ceder, sem se entregar; esqueça os
preconceitos, seus ou dos outros, transcenda a coisas tão pequenas. Aprenda a
ouvir sem que seja necessário palavras; aprenda a dar carinho sem esperar
reciprocidade; aprenda a enxergar beleza onde ninguém vê coisa alguma; aprenda
a valorizar os mínimos gestos.
Aprenda
a ser tradutora desse mundo tão caótico para ele, e você também terá de
aprender a traduzir sentimentos. Um exemplo disso: "Nossa, meu filho tá
tão agressivo". Tradução: ele se sente frustrado e não sabe lidar com
isso, ou está triste, ou apenas não sabe lhe dizer que ele não quer mais vê-la
chorando por ele.
Você
irá educar bem seu filho se aprender a conhecer o autismo "dele",
pois cada um tem o seu próprio, mesmo que inserido em uma síndrome comum.
Deverá
aprender a respeitar o seu tempo, o seu espaço, e reconhecer mesmo com
dificuldades que ele tem habilidades, e verá que no fundo elas são tão
espetaculares!
Você
irá aprender a se derreter por um sorriso, a pular com uma palavra dita, e a
desafiar um mundo inteiro quando este lhe diz algum não. Você começará a ver
que com o tempo está adquirindo superpoderes, e que a Mulher-Maravilha ou o
Super-Homem, não dariam conta de 10% do que você faz.
Você
tem o superpoder de estar em vários lugares ao mesmo tempo, afinal escola,
contraturno, natação, integração sensorial, consultas, fono, pedagoga, ufa...
Dar conta de tudo isso só se multiplicando e ainda se teletransportando!
Você
é a primeira que acorda e a última que vai dormir, isto é, quando ele a deixa
dormir, e no outro dia está sempre com um sorriso no rosto ao despertar.
Você
faz malabarismos e consegue encaixar o salário da familia em tantas contas e
coisas que precisa fazer, que só mesmo com superpoderes. Você nota que seu
cérebro é privilegiado, embora nunca tivesse imaginado que dentro de você
haveria um pequeno Einstein, pois desde o diagnóstico de seu filho, você já
estudou: neurologia, psiquiatria, pediatria, fonoaudiologia, pedagogia,
nutrição, farmácia, homeopatia, terapias alternativas, e tantas outras
matérias.
Você
dá aula de autismo, ouve muitas bobagens em consultórios de bacanas, e ainda
ensina muitos deles o que devem fazer ou qual melhor caminho a seguir para que
seu filho possa se dar bem. Ah... E a informática que anteriormente poderia lhe
parecer um bicho-de-sete-cabeças, a partir deste filho, você encarou e domina o
cyberespaço como ninguém!
São
tantas listas de autismos, blogs, Facebook, Twitter ... Ih ... pesquisa no
Google então, já virou craque, ninguém encontra nada mais rápido que você! Uma
hora você verá o que essa "reeducação" proporcionou a você, pois hoje
você é uma pessoa totalmente diferente do que era antes de ser mãe de um
autista.
Nossa
como você mudou, hein? E topará com a pergunta que não quer calar: "Como
devo educar meu filho autista?" Olhará ao redor, olhará para seu filho e
perceberá que ele também está diferente, que ele cresceu, que já não é tão
arredio, que as birras já não se repetem tanto, que ele até já lhe joga beijos!
Que aquela criança que chegou solitária na escola, hoje já busca interagir, e
já até fez algum amiguinho. Que ele já está aprendendo "jeitinhos" de
se virar, e nem a requisita tanto mais.
Então,
chegará a conclusão que mesmo sem saber responder a tal pergunta, você tá
fazendo um bom trabalho, e que ninguém no mundo poderia ser melhor mãe que você
para esse filho!